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coluna de opinião
A violação
Ilka Oliva Corado / quarta-feira 23 de Março de 2016 / Español
 

A lembrança mais vívida que tenho do meu tio Romid é a de um Natal em que veio nos visitar na zona 8 que era onde vivíamos na capital guatemalteca. O tio Romid era o irmão mais velho do meu Nanoj.

Toda a vizinhança festejava e o baile era no apartamento de uma moradora. Não lembro com clareza, mas nesse tempo eu tinha seis ou sete anos de idade e fugia dos bailes; todas as crianças da vizinhança dançavam, menos eu. Lembro bem do meu tio Romid, alto, magro, de olhos azuis, loiro, com seu típico par de botas de caubói, sua calça de lona e sua camisa quadriculada. Não lembro se naquela visita levou facão na cinta ou pistola, sempre andava com sua pistola.

Eu estava em pé, encostada na parede vendo as pessoas dançarem quando meu tio se aproximou e me tirou para dançar; eu sempre me negava a dançar, mas com meu tio não pude, me enfeitiçou aquele homenzarrão lindo e desde aquele instante a dança se tornou uma das minhas mais tórridas paixões.

Aqueles vizinhos do apartamento eram os únicos que tinham vitrola e uma gaveta cheia de discos de acetato nas quais se encontravam El Gran Combo de Puerto Rico, Fania All-Stars e El super Show de los Vásquez. Essa é a música que recordo quando penso naquele Natal. Bailando La Cartera, na versão de El Súper Show de los Vásquez. Puseram para tocar as canções Cuchupa e Don Goyo umas cinco vezes, e eu flutuava pelos ares levada pelas mãos do meu tio que varria o chão com suas botas de caubói.

Meu tio Romid era casado, tinha quatro filhos e como meu Nanoj também perdeu a infância muito cedo e se fez homem entre pastos, pilhas de lenha, plantações de milho e feijão. Ia com meu avô e minha mãe cortar flor de algodão na fazenda La Pangola, em La Gomera, Escuintla. Faziam parte dos grupos que saiam de Jutiapa em caminhões para trabalhar nas fazendas do sul do país por temporadas; conta minha mãe que dormiam em galpões que só tinham um teto de zinco, acomodados como podiam, homens de um lado, mulheres de outro, sobre o chão desnudo; quem tinha melhor situação podia comprar e levava sua esteira. Minha mãe teve seu primeiro par de sapatos aos 14 anos, meu tio Romid se fez homem com seus pés descalços. Eu trato de imaginá-los e me despedaço, fico agoniada só de pensar nessa infância de trabalho árduo, carências, miséria e exploração.

Nós ficamos sabendo que meu tio em uma das vezes que ficou bêbado numa cantina em Comapa tinha matado com um tiro um amigo seu de toda a vida. Tinham ido juntos para a cantina e no calor das bebidas ambos sacaram as pistolas e quem disparou primeiro foi meu tio que fugiu. Meus pais o convenceram a se entregar e o acompanharam à delegacia na capital. Foi enviado a uma prisão de Puerto Barrios para cumprir a pena. Morreu lá quando quis fugir depois de ter cumprido a maior parte da pena e só faltavam dois anos para ser libertado. Em algum lugar do cemitério de Puerto Barrios estão os restos do meu tio Romid. Deixou quatro filhos órfãos e uma esposa viúva. Eu me lembro dele assim, homenzarrão bonito que não tinha mais de 35 anos. Cresci escutando histórias de caubóis que minhas tias e meu avô contavam de seus irmãos, cresci imaginando meus tios como heróis inquebrantáveis e insubornáveis. Duas belezas da minha Jutiapa querida.

Em nossa infância e adolescência fez falta uma tia irmã do meu Nanoj, minha tia Marina, cor de azeviche, com corpo de negra africana. Logo que nos mudamos para a capital emigrou, trabalhava como empregada doméstica na capital. De vez em quando chamava por telefone, é a penúltima das crias de tio Juan e tio Lilo. É igualzinha à minha mãe, só que em negro, são duas gotas de água com seis anos de diferença. A única coisa que soubemos é que havia ido para o norte, eu adiava esse norte porque tinha me tirado muitos de meus amigos de infância e também minha tia. Ironias da vida: é nesse norte que vivo atualmente.

Minha tia fez falta para nós em tudo, nas reuniões familiares, nos aniversários, nos partos de suas irmãs, nos batizados, nas brigas familiares, em tudo. Suas irmãs tampouco estiveram nos seus partos, nos aniversários dos seus filhos, nos dias comuns da convivência familiar que são os que fortalecem os laços emocionais. Não convivemos com os primos. A migração nos tirou tudo isso e esse tempo é irrecuperável. É um vazio que ninguém mais pode preencher. O mesmo acontece comigo, estou vendo crescer à distância minha sobrinha, eu é que deveria ensiná-la a jogar futebol e a andar de bicicleta. E não estou lá. Não estive no parto de minha irmã mais nova. Não estou no dia a dia. Sou uma completa estranha para meus irmãos que deixei quando estavam entrando na adolescência. Minha família já ouviu meu nome, mas não me conhece. Quanto nos tira a migração, o que nem com todo o dinheiro do mundo se pode comprar. A convivência familiar e o amor não têm preço. Quando um membro de uma família emigra é como se um vaso se rompesse, e mesmo que se colem os cacos nunca fica igual. Assim aconteceu em nossa família com a emigração da minha tia Marina. Quando meus tios morreram nunca mais voltei a ver o sorriso de meus avós, morreram junto com eles. E um pouco de minhas tias e de minha mãe também. É como se tivessem arrancado de um golpe o coração.

A tia tinha uns 25 anos quando emigrou. Enquanto eu estive na Guatemala veio nos visitar duas vezes. Do México cruzou para os Estados Unidos e não gostou, então ficou vivendo em Tijuana com seu esposo guatemalteco. Quando ela emigrou eles eram noivos e ele a seguiu até lá. Tiveram quatro filhos no México. Passaram os anos e eu emigrei como ela, e um dia conversando por telefone, falando das saudades da terra e de vazios existenciais saiu a confissão de um dos segredos mais bem guardados da minha família materna. Eu havia ouvido que minha tia, por ser negra, tinha ido morar com sua vó (minha bisavó Mamita) porque minha avó a agredia fisicamente e a queimava com carvão em brasa, não a suportava por ser negra (tal como aconteceu comigo com minha mãe, e como aconteceu com minha tia Aidé, também irmã de meu Nanoj). Não só a agredia, somo também a deixava sem comer como castigo. Minha tia teve uma infância infernal e ao ver isso minha bisavó disse para minha avó que era melhor ela ficar com a menina e minha avó a deu pra ela.

Enquanto minha avó vivia com seus filhos em Comapa que era o povoado, a menina morava com sua avó em uma aldeia, mas queria estudar e minha bisavó alugou pra ela um quarto na cidade para que frequentasse a escola primária; por casualidade o quarto ficava em frente à casa da minha avó.

Imagino o vazio e a dor da minha tia vendo seus irmãos com os pais , e ela do outro lado da rua vivendo sozinha em um quarto, e isso que era apenas uma menina. Mamita subia todos os dias e lhe levava comida. Mamita morreu e a vida da minha tia tornou-se mais infernal ainda, teve que voltar a morar na casa da sua mãe e as agressões aumentaram. Meu tio Romid a agrediu a violou durante anos e isso era sabido por toda a família, mas ninguém disse nada. Minha tia, por causa das violações, ficou grávida. Nessa época minha mãe já tinha se juntado com meu pai e vivíamos na capital. Ela foi levada para lá e conseguiram pra ela um trabalho como empregada doméstica. Minha tia perdeu a gravidez. A essa altura não sei se perdeu ou abortou, mas se abortou eu a felicito e apoio; tem meu respaldo absoluto.

Pouco tempo depois de ter chegado à capital, emigrou. Tenho lembranças vagas dela naqueles dias, com seu cabelo afro penteado para cima com pentes tipo rastelo. Lembro-me de uma fotografia que a minha mãe tem, desse tempo, com uma blusa de seda cor de chá e uma calça branca. Sempre que escuto a música do grupo Miramar a recordo e uma dor profunda se retorce nas minhas entranhas, de negra, de mulher, de pária. Quis muito estar junto dela quando escutei o tremendo relato de sua vida em Comapa, mas estava a milhares de quilômetros e no telefone. Chorei em silencio enquanto a escutava e se remexia a imagem que tinha de meu avô materno, do tio Lilo que é o homem de quem eu aprendi integridade, dignidade e a respeitar minha palavra dada. O que sei de retidão eu aprendi com meu avô camponês e analfabeto. Penso no meu tio Romid e não consigo associar aquele homem bonito e bailador com um violador.

Só consegui falar do assunto com minha mãe e ela me disse que assim é naquele lugar e que naqueles anos era pior. Com minhas tias não me atrevo a falar e muito menos com minha avó.

Penso em minha tia e nas milhares de meninas que tiveram a inocência arrebatada e aqueles que continuam arrebatando a inocência e não consigo me repor deste insondável desconsolo de estar viva, porque tal como dissera Carolina Vásquez Araya, “uma menina violada perdeu não só sua integridade física, mas também o equilíbrio emocional e, como consequência, sua capacidade de administrar suas emoções para levar uma vida saudável”.

A vida já não é a mesma depois de uma violação, a alma se torna um sem fim de partículas, não há piso firme para pôr os pés. Fica o estigma, que se converte em mais um inferno e se respira com dificuldade porque já não se vive. Se trata apenas de sobreviver.

Não vou condenar nem apedrejar minhas tias, nem minha mãe, nem minha avó pela violação da minha tia, porque isto é um sistema patriarcal onde a violação, como outras vexações são permitidas ou vistas como normais porque a mulher continua sendo catalogada como um ser inferior e sem direitos. Ou seja, isso não acontece em apenas uma família, seus raízes têm séculos e acontece em todos os estratos da sociedade. Sempre acodem à minha cabeça milhares de perguntas. O que faremos nós como sociedade para que isto não continue acontecendo? Que papel nós desempenhamos como indivíduos e sociedade no patriarcado e na violência de gênero? Como podemos ser parte da solução?

Publicada em: Diálogos do sul

La violación (texto en español)