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Para o Bloque Magdalena médio / frente cuarto
Quando a luta se torna na nossa casa
Magdalena / sexta-feira 24 de Junho de 2016
 
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Guerrilleros del Bloque Magdalena Medio de las FARC. Foto: Stephen Ferry, The Guardian

Pode ser que esta belíssima prosa poética surpreenda alguns leitores, mas é inegável que este belo texto é uma fraterna reflexão sobre a, cada vez mais necessária, luta pela solução dos problemas que condicionam a evolução da história em movimento.

Como diz Magdalena, «alguém com quem comparti a minha vida me relembrou, um destes dias, que há praticamente 15 anos, na porta do meu quarto, tinha uma imagem das mulheres farianas. Não me lembrava da imagem. Não me lembrava de que, sem vocês o saberem, vocês sempre me haviam acompanhado.»

Não vos posso dedicar uma música. Não sei tocar. Não vos posso abraçar. Não estou presente. Não vos posso dizer o quanto vos quero. Não vos posso falar. Restam-me as linhas escritas. Estas que agora vos envio.

Alguém com quem comparti a minha vida me relembrou, um destes dias, que há praticamente 15 anos, na porta do meu quarto, tinha uma imagem das mulheres farianas. Não me lembrava da imagem. Não me lembrava de que, sem vocês o saberem, vocês sempre me haviam acompanhado.

As FARC-EP entraram na minha vida, naturalmente, como mulher comunista. A presença fazia-se através das leituras, das discussões, de uma constante busca de informações sobre esta luta nas montanhas que para nós estava tão esperançosamente longe. Sentávamo-nos à volta de uma mesa, discutíamos, apaixonava-me. Mas as montanhas colombianas pareciam-me tão inexplicavelmente inacessíveis.

Quando, pela primeira vez, pisei terras colombianas, no paro agrário de 2013, soube que nunca mais deste vosso país me afastaria. Não me canso de escrever o que foi presenciar o terrorismo de Estado nesta vossa terra. O medo que então senti. As amizades que, desde então, perduram. As amizades feitas na solidariedade da luta, no medo da repressão, na certeza de que o mundo que queremos construir não tem fronteiras.

Quando, de novo, em 2015, volto a pisar estas terras, para com um comandante falar, tive a confirmação da certeza que dois anos antes em mim se firmara: a luta embrenhara-se em mim, bem cá dentro, bem no fundo, profunda.

Corria o ano de 2006 quando, pela primeira vez, senti o solo latino-americano. Passaria, então, três meses no México num momento histórico da luta neste país. Atenco havia passado, mas decorriam as eleições presidenciais. Lopez Obrador perderia, por um golpe eleitoral, a presidência para Felipe Calderon. As ruas da cidade do México seriam ocupadas por um povo que gritaria a plenos pulmões, Voto por Voto, Casilla por Casilla. Os meus então 25 anos percorriam fascinados as ruas, as lutas, as conversas, aprendiam com Diego Rivera, Siqueiros, Orozco e Frida Khalo a luta de resistência deste sofrido e resistente povo. Estive nas ruas ocupadas de Oaxaca, cantei O Povo Unido de punho erguido, apaixonava-me por este continente que se tornaria, anos mais tarde, a minha Casa.

Voltaria em 2009, para três anos passar na Guiana Francesa, nesta última colónia europeia em continente americano. Aprendi a amar a Amazônia, a nela caminhar, a sentir os seus rios, a cheirar a sua floresta, a tocar as suas histórias de degredados e prisioneiros políticos que tanto buscaram a Liberdade que lhes fora barbaramente negada. E desde então fui criando as raízes que agora aqui me prendem. E que ninguém arrancará.

Em 2012 abdicaria de um percurso profissional na academia francesa para viver a luta dos Sem Terra, no Brasil. Vínculos ideológicos, de vida, de camaradagem, de um quotidiano compartilhado, criaram a Casa que será sempre também minha. Os Sem Terra abriram-me definitivamente as portas da Luta que hoje abraço. A América latina aparecia-me sem segredos, as ocupações aprenderam-me a solidariedade no dia-a-dia da repressão, da perseguição, do medo transformado em Força. E a Colômbia que, tantos anos antes, me parecia tão geograficamente distante, aqui estava, ao meu lado.

Veio o paro agrário, as amizades feitas na solidariedade da luta, veio Carrisales, a conversa com o Comandante, veio a certeza desta casa latino-americana cujas raízes se fixaram no corpo.

Quando, neste ano de 2016, desembarco novamente no aeroporto de Bogotá, não pude deixar de sorrir à cidade então já conhecida. Mas não poderia imaginar o quanto essas vossas magníficas montanhas de luta me prenderiam, definitivamente, a este solo.

Homens e mulheres de luta: somos um tronco. Nele, estão marcadas as memórias, as lutas, o que de essencial nos constitui. Vamos crescendo, o tronco cresce, os ramos vão-se acrescentando, uns caiem, outros ficam: são as vivências e memórias que ora ficam, ora vão. A Colômbia acrescentou ao tronco o essencial que me vinha fazendo crescer. Já não é um simples galho de memória ao qual vários outros se sobreporão. Não. A Colômbia é parte essencial do tronco, suportado nas raízes que me fizeram Mulher: e Comunista. Agora, sei-o. Graças a vocês.

É curioso. Soube-o desde o momento em que Pedro, descendo da mota, me viria buscar a Mina Nueva. Soube-o desde o momento em que com Teo partilho uns cafés e uns cigarros. Lembro-me da camiseta que logo me prendeu o olhar, Essa imagem é da Revolução Russa. E seguiu-se a conversa (Lembras-te Teo?) sobre projetos e utopias. Ou sobre a utopia que se transforma em projeto.

Soube-o desde o momento em que, com a dificuldade ofegante de uma iniciante, chego ao cimo da pequenina montanha, para mim enorme, que me apresentaria o acampamento onde tu, Teo, tu, Ruso, tu, Esteban, tu, Nena, tu, Martin, tu, Natalia, tu, Samuel, tu, Emily, tu, Didier, tu, Jhon, tu, Dario, tu, Caterine, tu, Daniela, tu, Pedro, onde todos vocês me abraçariam nessa rara beleza humana que cada um de vocês comigo partilhou.

Soube que a terra colombiana, a luta vossa, se tornaria parte integrante da Mulher que sou.

Soube-o desde então.

Seguiu-se o outro acampamento. E quando aí abracei Mona, Ginette, Hânia, o Comandante Alberto, Areles, Andrés, Arnulfo, Veronica, Romira, Cornélio, Alfredo, e todos vocês, todos, sem exceção, nesse momento adivinhei a dor que seria a partida, adivinhei as lágrimas que, dias mais tarde, escorreriam.

Se antes adivinhava o heroísmo que cada um de vocês acrescenta aos heróicos 52 anos de vida das FARC-EP, aí pude tocá-lo, senti-lo, vivê-lo. E não tenho palavras para descrever o que a vivência da solidariedade, do companheirismo, das vossas lágrimas, das vossas alegrias, das vossas tristezas, em mim deixou.

O coração cresce, pula, desorganiza-se, procura-Vos.

A admiração foi crescente. A vossa resistência, a vossa capacidade de dar a vida por uma outra Colômbia, os terríveis e assustadores momentos de luta na guerra, as mortes e assassinatos por vocês assistidos, os companheiros e companheiras perdidos, as memórias de bombardeios, de medos, os terríveis gritos de pedidos de ajuda de quem já não está, as últimas palavras por vocês escutadas de quem nesta guerra perdia a vida, as feridas de guerra que vocês carregam, a capacidade de seguir adiante nesta luta maior que diariamente não abandonam, a esperança de uma Colômbia em paz, fazem com que privilegiadamente saiba que, com cada um de vocês, comparti a Maior Beleza do ser humano: a de que a luta Continua, Continuará, porque Somos e Seremos Sempre cada Vez Mais.

Voltarei. Pela luta, pela solidariedade, por cada um de vocês, pela certeza de que nos unirá Sempre a esperança e a certeza de um projeto de uma sociedade onde, sem medo, sem repressão, sem violência, poderemos construir o Homem Novo.

Quero-Vos muito. Tanto e tanto, que me faltam as palavras. Como me faltaram naquele último dia, naquela despedida, naquela montanha em que as palavras se atropelaram entre as lágrimas e a emoção que não consegui conter.

As FARC-EP nada seriam se cada um de vocês não transportasse convosco, montanhas adentro, nessa Grande Colômbia que um dia verá a paz, a Grande Luta que nos une.

Quero-Vos muito.

Voltarei. Voltarei Sempre. Voltarei em breve.

E abraço-vos com toda a solidariedade, com toda a camaradagem, com todo o companheirismo, com toda a ternura com que vocês me presentearam,

Magdalena

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