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Brasil
Greve na USP: inovações repressivas e os desafios da resistência
Thiago de Faria Silva / terça-feira 9 de junho de 2009
 

Nos últimos meses, a comunidade uspiana tem assistido a uma escalada de eventos autoritários: sindicalistas são demitidos durante o exercício de suas funções de representação e policiais são chamados para mediar conflitos políticos entre a comunidade universitária. Muitos dizem essas práticas fazem parte de uma ressurreição anacrônica da ditadura militar, que invadiu o campus da USP em 1979.

O grande problema é que não basta acreditarmos que “a ditadura voltou”. A criminalização dos movimentos sociais há muito deixou de ser exclusividade das ditaduras. Ela faz parte de algo muito mais amplo e mais perverso. No caso da USP, essa estratégia política faz parte de um novo projeto de universidade. Com a polícia e sem os sindicatos, o que se quer é a limpeza das universidades brasileiras, eliminando todos os espaços públicos de discussão. Com policiais e perseguições, os reitores não querem homenagear os antigos ditadores. Eles querem implantar a sua universidade técnica, “apolítica” e de excelência. Não há “volta da ditadura”. O que há é o aprimoramento de antigas práticas para a criação uma nova forma de anular a fala, a diferença e a discussão.

Frente a isso, o que faremos? Gritaremos para os seus ouvidos moucos até a exaustão? Como discutir com um mandado de reintegração de posse? Como pensar “sob olhar atento de um vigia”? Para boa parte dessas perguntas, o movimento social não tem respostas. E os partidos políticos não acham essas perguntas nem um pouco relevantes.

De qualquer maneira, a USP (funcionários, professores e estudantes) está em greve desde a semana passada. A greve fecha nossos cadernos, inutiliza nossos livros e nos retira da universidade. Em greve, nos sentimos paralisados à espera da resignação ou da complacência da burocracia. De braços cruzados, legitimamos o poder que a Reitoria da USP possui de decidir as nossas vidas.

Por isso, vamos para frente da reitoria e ficamos lá, agora ao lado da tropa de choque policial, esperando a reitora voltar de Paris. Para quê?

Nas assembleias, a greve surge como a resposta inevitável, e talvez como um momento para pensar. Mas infelizmente temos rodado no ciclo vicioso das greves por si mesmas, onde a figura mais triste e sombria da situação é a fragmentação das nossas forças entre os estudantes grevistas e os estudantes que convocam a polícia para garantir o seu miserável direito de estudar. Cabe perguntar quando foi que o estudo se tornou algo tão individualizado e egoísta. Quando foi que a universidade se tornou tão pequena frente ao direito individual do estudo?

Em 2007 conseguimos fazer algo diferente e fomos morar na Reitoria da USP. Levamos colchões, cartazes e discussões para o lar frio dos cargos e dos papéis timbrados do poder. Em pouco tempo, percebemos que não poderíamos ficar ali para sempre, afinal, por mais que tivéssemos transferido as nossas aulas para lá, ainda permanecíamos reféns da barganha com o poder, mesmo após a ocupação do seu lar.

Após algumas semanas, percebemos que o poder poderia ir para outro lugar enquanto nós dormíssemos na sua sede física.

Em 2009, não tivemos a força ou a coragem de repetir a ocupação da Reitoria, talvez porque percebemos que a ocupação, apesar de mais danosa para os burocratas, ainda os mantinha no poder. Resta saber se não há uma maneira de tomar não somente a sede física do poder, mas também a sua função, o próprio poder? Não há?

Poderemos ocupar a reitoria não para barganhar, mas para construir uma nova reitoria? Para gerir de maneira não burocrática a nossa universidade? Ou até mesmo para negociar com o Estado não algumas migalhas, mas uma outra política para a educação?

Precisamos pensar em uma maneira de quebrar o ciclo vicioso que, com ou sem a repressão, eles nos impõem. Só assim iremos ultrapassar o debate fratricida da greve ou não greve, do piquete ou não piquete, do atendimento ou não das nossas reivindicações. A greve pode ser um começo, mas o problema é quando ela se torna o fim. Enquanto eles depuram e inovam as práticas da ditadura, nós não podemos nos contentar com os velhos inimigos e com as mesmas formas de luta. Precisamos pensar, inovar e duvidar: como é mesmo que estamos lutando?