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Paz na Colômbia depende da renúncia de Uribe
No momento em que escrevo, corre pela Europa, reclamando a renúncia de Álvaro Uribe à Presidência da Colômbia, um manifesto – apelo já assinado por numerosas organizações culturais, sociais e politicas e dezenas de prestigiados intelectuais com diferentes posições ideológicas. Os signatários responsabilizam Uribe pela morte de 11 parlamentares regionais do Vale do Cauca, vítimas de uma operação militar desencadeada no âmbito da politica de "resgate" pela violência dos prisioneiros das Forças Armadas Revolucionarias da Colômbia – FARC-EP.
Miguel Urbano Rodrigues / domingo 5 de Agosto de 2007
 

Vaiado na Europa em visitas oficiais, denunciado como neofascista pelas forças progressistas da América Latina, Uribe fecha o caminho da paz ao insistir numa política de escalada militar contra a insurreição guerrilheira.

Balanço desastroso

Surdo aos apelos do povo para que abra o diálogo com as FARC com vista a um acordo humanitário, ordena ao Exército que liberte através de ações de força os prisioneiros em poder da organização revolucionária.

O balanço das operações desencadeadas com esse fim é desastroso. Além dos deputados do Cauca, o Governo tornou-se responsável pela morte, entre outros prisioneiros, de um ex-ministro e oito militares.

Os protestos das famílias e da Igreja contra a escalada das “operações de libertação” que terminam em mortandade, contribuíram para que Uribe, por um tempo breve, simulasse abertura ao diálogo com a insurreição. Não suspendeu as ações de «resgate militar», mas afirmou estar disponível para discutir uma solução de intercâmbio humanitário, desde que as regras fossem estabelecidas por ele.

Numa operação de propaganda que não produziu os resultados esperados, reagindo a um apelo do presidente Nicolás Sarkozy, da França, libertou a 4 de Junho o comandante Rodrigo Granda, membro destacado da Comissão de Relações Internacionais das FARC, que fora seqüestrado em Dezembro de 2004 na capital da Venezuela pela polícia colombiana numa operação de pirataria empreendida com a colaboração da CIA. Mas, transcorridos dois meses, nem sequer autorizou ainda que Granda, levado para o Palácio da Arquidiocese de Bogotá, possa sair do país.

O seu conflito com o Poder Judicial é no momento transparente. Insulta o Supremo Tribunal porque alguns juízes conselheiros o criticaram por pretender impor uma lei fascista (a que chama de “justiça e paz” concebida para garantir a impunidade a narco-paramilitares responsáveis pela chacina de milhares de camponeses e outros crimes. Usando uma linguagem agressiva e grosseira, desrespeita decisões do Supremo, qualificando os magistrados de “ideólogos” que “o estão perseguindo com as suas sentenças”.

A chamada “libertação unilateral” de 150 “guerrilheiros” foi uma farsa logo denunciada pelas FARC, pois esses elementos não tinham quaisquer vínculos com a organização revolucionária.

Condições mínimas

A posição das FARC é transparente e foi aliás levada ao conhecimento do presidente Sarkozy e das Nações Unidas. O partido-guerrilha de Manuel Marulanda defende um Acordo Humanitário para troca de prisioneiros. Entretanto, exige a desmilitarização, sob controlo da Comissão Facilitadora - França, Suíça e Espanha – de dois municípios, Florida e Pradera, para que haja condições mínimas de segurança durante o diálogo com os representantes do Governo.

Uribe respondeu ampliando a sua política de guerra. Sem êxito. O Plano Patriota, apêndice do Plano Colômbia, fracassou ostensivamente. O Exército não alcançou nenhum dos objetivos que se propunha ao montar no Meta e no Caquetá uma ambiciosa operação de cerco em que participaram milhares de soldados. No último ano e meio acumulou enormes perdas. As despesas com a «segurança interna» (leia-se guerra) aumentarão em 2008 de 1,9 bilhões de pesos para 5 bilhões. A demissão de um punhado de generais chamou a atenção do povo para a profundidade da crise existente na instituição militar.

Mas Uribe, tripudiando sobre princípios do Direito Internacional mundialmente aceites, incentiva o Exército a realizar incursões armadas em áreas fronteiriças da Venezuela e do Equador, violando a soberania daqueles países. Recentemente, o ex vice-presidente da Venezuela, José Vicente Rangel, afirmou ter provas de que militares colombianos atravessaram a fronteira “perseguindo supostos elementos das FARC”. O próprio ministro da Defesa de Uribe, José Manuel Santos, é acusado de ter participado numa conspiração cujo objetivo era a pratica de crimes susceptíveis de provocar uma crise política na Venezuela bolivariana.

É também do domínio publico que a Força Aérea colombiana, ignorando os protestos do Presidente do Equador, Rafael Correa, continua a bombardear com glisofato – um pesticida altamente tóxico proibido por leis internacionais – áreas daquele país, com o argumento de que existiriam ali plantações de coca. Washington, obviamente, aprova e encoraja iniciativas como essa. E o aval ao crime funciona como estímulo para Uribe. O governo de Bush fornece às Forças Armadas colombianas (as mais poderosas da América Latina, com 300.000 homens) armamentos sofisticados a que somente Israel tem acesso. De concessão em concessão, Uribe discute no momento com o grande aliado a proposta dos EUA para a instalação no Arquipélago de San Andrés e Providencia de uma base naval e aérea norte-americana. Bush teme o encerramento em 2008 da Base de Manta no Equador; e a alternativa ideal para o Pentágono seria a transformação das ilhas caribenhas da Colômbia num gigantesco porta-aviões estadunidense fixo. Seria simultaneamente um «paraíso fiscal» para a lavagem de dólares da máfia paramilitar uribista.

No seu delírio de matizes paranóicos, Álvaro Uribe, dirigindo-se ao primeiro-ministro do Canadá, esforçou-se por persuadi-lo de que as FARC estiveram quase a tomar o poder em 2002.

Frankenstein

Num artigo divulgado no dia 30 de Julho, o comandante Ivan Marquez, do Secretariado do Estado-maior Central das FARC, lembra que Uribe fala e atua presentemente como um “Frankenstein da narco-para-politica”.

”Toda a cúpula do Estado –acusa – está envolvida. Os seus ministros mais importantes, o da Defesa, o das Finanças, o vice-presidente da República, o comandante do Exército, uns 50 congressistas uribistas, vários governadores, o seu ex chefe da Segurança, a ex ministra dos estrangeiros… todos chafurdam sem saída nesse pântano da podridão que é a narco-para-politica (…) Trata-se de um governo montado sobre milhares de fossas comuns, milhões de deslocados, de serras elétricas paramilitares, de torceduras de pescoço à Constituição, de fraudes eleitorais e dinheiros do narcotráfico”.

E a desvergonha e a mentira atingem tais proporções que, invertendo a realidade, este governo neofascista, atolado no narcotráfico, apresenta as FARC perante o mundo como envolvidas no tráfico da droga do qual viveriam. Passei semanas num acampamento das FARC, na Amazônia, no ano 2001. Na cidade de San Vicente del Caguan, a capital da zona desmilitarizada, controlada pelas FARC, o tráfico e o consumo de cocaína eram proibidos. A criminalidade na região caiu muito, tornando-se residual.

Novo cenário

Em longas conversas que mantive então com o comandante Raul Reyes, ele abordou sem reservas o tema. As FARC perderiam o apoio dos camponeses cocaleros se assumissem uma atitude repressiva, arrancando as plantações. A nível nacional, a posição adotada perante os grandes narcotraficantes partiu do princípio de que o combate à droga é uma tarefa do Estado. As FARC propuseram, entretanto, ao presidente Pastrana a realização de uma experiência piloto de substituição de culturas no município de Cartagena de Chairá, grande produtor de coca. O projeto foi enviado às Nações Unidas para que dele também participassem. O seu custo seria muito baixo. Previa que em menos de 10 anos a produção de coca terminaria ali praticamente. Mas o governo arquivou o projeto; nem sequer respondeu.

Que fizeram as FARC? Promulgaram a Lei número 1 que torna obrigatório o pagamento de um imposto elevado aos detentores de fortunas superiores a um milhão de dólares. Não poderiam obviamente isentar desse imposto os grandes narcotraficantes. Se os ignorasse, eles seriam beneficiados.

Tive pessoalmente a oportunidade de consultar documentação internacional que ilumina a origem do slogan infamante que vincula as FARC com o narcotráfico.

Foi Louis Tambs, ex-embaixador dos EUA em Bogotá e quadro ligado à CIA , quem, numa reunião do Pentágono em que se discutiam métodos adequados para desacreditar as FARC a nível mundial, apresentou uma proposta logo aprovada com entusiasmo.

Vamos passar a designá-las – sugeriu – como “a guerrilha do narcotráfico.”

O slogan perverso funcionou e foi tão habilmente utilizado nas campanhas da direita colombiana e do imperialismo que milhões de pessoas, pelo mundo fora, identificam hoje nas FARC uma guerrilha de narcotraficantes.

Os fatos, indesmentíveis, são esses. Perante atos e palavras que configuram os contornos de uma politica progressiva de fascistização do Estado, é compreensível e oportuna a iniciativa do manifesto-apelo das organizações democráticas e intelectuais da Europa de apresentar a renuncia do presidente Álvaro Uribe como indispensável a um diálogo entre colombianos que permita o intercâmbio humanitário e abra as portas à Paz, desejada pelo povo Nariño cujos filhos em lutas heróicas foram, sob a direção revolucionária de Bolívar, a vanguarda da saga da independência das antigas colônias espanholas.

Somente esse diálogo poderá abrir as portas a uma solução politica do conflito armado compatível com a Plataforma de 12 pontos da Nova Colômbia e da Agenda Comum do Caguan, aprovada pelo próprio governo Pastrana durante as negociações que transcorreram em Los Pozos, na zona desmilitarizada então criada para o efeito.

Fonte: O Diário.info

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